Heróis Desconhecidos - Aracy Moebius de Carvalho : J de Justa parte I

November 20, 2017



Aracy parte II
Aracy parte III

1. Aracy: "se pudesse faria tudo novamente"

Segunda esposa de Guimarães Rosa, nasceu no município de Rio Negro, interior do Paraná.Ela cresceu em São Paulo para onde seus pais se mudaram por volta de 1910. Estudou em colégio de freiras e depois no Batista Brasileiro. Casou-se aos 22 anos com Johannes Edward Ludwig Tess  porém seu temperamento forte o fez se decepcionar e eles concordaram em se divorciar. Sua mãe teve a idéia de mandá-la para a casa de sua tia Lutz em Hamburgo. Graças à ajuda  de um ex-chefe do Itamaraty, José Carlos de Macedo Soares e sua aptidão para idiomas - sendo fluente em Inglês, Francês e Alemão- obteve nomeação m 1935 para o posto administrativo no consulado do Brasil.

Foi para Hamburgo com seu filho de 3 anos. Na rua , ela chamava a atenção por sua beleza que era constantemente comparada a de Vivien Leigh, atriz que interpretou Scarlet  O' Hara em E o Vento Levou,porém essa aparência meiga e tranquila escondia uma temperamento forte e intrépido para a época.Em 1938, meses após a chegada de Guimarães Rosa no consulado, não demorou para que a bela Aracy chamasse sua atenção.


"Deixa que eu diga que você estava linda,linda, na hora de partir" - escreveu Guimarães Rosa  - " Dormi abraçado com a camisolinha cor-de-rosa, toda impregnada do aroma do corpo maravilhoso da dona de meu amor.(...) Serei absolutamente fiel, não olhando para as alemãzinhas, as quais, por sinal, todas viraram sapos."

"Vou para cama, para dormir com a camisolinha cor-de-rosa, depois de conversar um pouco com os chinelinhos chineses que me falarão dos lindos pezinhos da sua dona."


Em junho de 1939, fazia já mais de um ano que Aracy tratava de encaminhar para o exterior os judeus que buscavam uma forma urgente de emigar.Se arriscava por eles desde quando os nazistas  entraram na Áustria, provocando uma onda de terror na comunidade israelita local. Em junho de 1937 uma Circular secreta de de numero 1.127 do Itamaraty previnira os consulados e missões diplomáticas brasileiros acerca das restrições à entrada de judeus no Brasil.Em 5 de Maio de 1938, o Decreto-Lei nº 406 reiterou essa discriminação  com uma lista  de imigrantes indesejados - e o judeus estavam nela.Aracy optou por não se afastar de sua atividade clandestina.

 2. Dona Margarida Levy



Em meados de novembro de 1928, Aracy escondeu em sua casa por 11 dias a amiga Maria Margarethe Bertel Levy, hamburguesa de 30 anos que trabalhava com importação e exportação.Ela era casada com o dentista Hugo Levy ( que passou 12 dias escondido na casa de um cliente), cirurgião- dentista ( ambos judeus não praticantes) e foram obrigados a abandonar o apartamento que moravam e fechar o consultório, após uma visita da SS.   Aracy fez de tudo para enviar o casal para o Brasil, onde eles tinham família, o mais rápido possível porém não funcionou com a rapidez necessária.Aracy impediu que o casal tivesse apenas um visto temporário de 90 dias, podendo ser prorrogado por mais 90 dias somente uma vez e de forma arriscada. Ela submeteu a documentação de ambos ao cônsul-geral, deixando em branco um certo espaço. Depois que tudo recebeu a assinatura de Joaquim Antônio Souza Ribeiro, ela preencheu o espaço com os seguintes dizeres:

                   Este visto deve ser transformado em permanente na chegada ao Brasil


Existiram muitas outras pessoas que ajudaram o casal Levy:

1. Zumkley avisou Hugo o dia certo que ele deveria partir


2. Outros dois amigos alemães não identificados


3. Um amigo que fora tratado de graça no consultório de Hugo ajudou no inventário de seu patrimônio


4. Outro amigo que arrumou um lugar confortavel para eles no Cap. Arcona, o navio que os levou ao Brasil, em 23 de novembro. Os Levy montaram seu consultório quando chegaram no Brasil.





                      
                        Abaixo, o relato da amizade duradoura entre Levy e Aracy


Publico, abaixo, o comovente texto que recebi de Marlene Soares intitulado "Velhas amigas"de autoria de Carla Sasso Laki e Débora Nogueira do estadao.com.br.

Segundo informações de uma representante da família, Dona Aracy ficou muito próxima de uma das famílias que ajudou a resgatar da Alemanha. Quando voltaram ao Brasil ela e Maria Margareth Bertel Levy, ou Dona Margarida - como era conhecida, se tornaram quase inseparáveis.
A amiga alemã ficou viúva cedo e acabou sendo 'adotada' pelos Tess. "Quando uma ficava doente, a outra também ficava. Parecia que eles sentiam as mesmas coisas. Em 2003 as duas caíram, uma em casa, outra na rua, e acabaram ficando de cama até hoje", afirmou a fonte.
Dona Margarida faleceu no último dia 21 de falência múltipla dos órgãos e, três dias após o ocorrido, Dona Aracy começou a passar mal e foi internada novamente.
De acordo com a representante da família, é evidente que ela não tinha conhecimento do falecimento da amiga, mas é curioso como elas passaram por muitos problemas semelhantes em períodos próximos.
fonte: http://classico.velhosamigos.com.br/Foco/aracyguimaraesrosa.html



 Aracy não fez somente isso, mas enviou cartas ao Brasil, para sua mãe e para um delegado de polícia, Armando Franco Soares Caiuby, pedindo que ambos assistissem ao casal.

Obtuário de Maria Margarethe Bertel Levy : http://www1.folha.uol.com.br/fsp/cotidian/ff0203201128.htm

MARIA MARGARETH BERTEL LEVY (1908-2011)

A amizade entre a alemã Maria Margareth Bertel Levy e a paranaense Aracy de Carvalho começou nos anos 30, em Hamburgo, na Alemanha. Margareth, lá nascida, era filha de judeus poloneses e, naquela época, sentiu-se ameaçada pelos nazistas.
Com a perseguição, seu marido, o dentista Hugo, escondeu-se, e ela foi providenciar a fuga dos dois. No consulado brasileiro em Hamburgo, conheceu Aracy, funcionária do setor de vistos.
Como era limitada a saída dos judeus, a brasileira tinha criado um esquema para ajudá-los, burlando as normas.
Aracy pôs o carro com placa diplomática a serviço de Margareth e conseguiu embarcar o casal com suas joias. Eles chegaram a SP em 1938.
Durante a guerra, a alemã perdeu mais de 20 familiares na Polônia; a mãe foi morta pelos nazistas em Varsóvia.
Em 1942, Aracy voltou ao Brasil casada com um colega de consulado, o escritor Guimarães Rosa, que anos depois dedicaria "Grande Sertão: Veredas" à mulher.
As duas se reencontraram e tornaram-se melhores amigas. Margareth era ativa, ia semanalmente ao banco, adorava jogar bridge no Guarujá e, até os anos 90, ainda guiava seu Corcel marrom.
Hugo foi dentista de famílias alemãs. Ele morreu há cerca de 20 anos. Como não tiveram filhos, Margareth passou a receber cuidados do filho de Aracy, Eduardo, que a adotou como segunda mãe.
Há dois anos, ela já não falava nem escutava direito. Na segunda (21), quando morreu aos 102, de falência de órgãos, a amiga passou mal. Aracy, hoje também aos 102, encontra-se hospitalizada.

3.Relações de nomes confirmados por Israel
Karl Franken sobreviveu a Hitler graças a Aracy. No Brasil, ele encontrou outra fugitiva do nazismo, Gertraud (acima, ela segura sua foto). E com ela Karl iniciou uma família.


FRANKEN, Karl;
CALLMANN, Grete;
CALLMANN, Max;
 HEILBORN, Günter;
 HEILBORN, Inge;
LEVY, Hugo;
LEVY, Maria Margarethe Berthel;
Levy, Bertel.


.
Faleceu em 03/03/2011 sem lembrar-se de nada do que havia feito.


Fotos



Os dois diplomatas do Itamaraty que receberam a honra de ter seus nomes nos Jardins dos Justos- Israel








3 diplomatas do Itamaraty: Aracy , Guimarães, desconhecida,Souza Ribeiro


Fontes de pesquisas

 http://www.arqshoah.com/index.php/iconografia/1673-ico-3-aracy-moebius-de-carvalho-guimaraes-rosa

Fotos do museu: http://silvanalves.com.br/site/2017/09/reportagem-especial-um-passeio-pelo-museu-do-amanha-e-aquario-marinho-do-rio-de-janeiro/

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