Aracy Moebius de Carvalho parte III - Este Viver Ninguem Me Tira

November 20, 2017

 

Caco Ciocler reconstrói o heroísmo de Aracy, mulher de Guimarães Rosa, na Alemanha nazista

 
 
 
 
Aracy Moebius de Carvalho (1908-2011) pode ser lembrada tanto como a mulher de Guimarães Rosa quanto como uma heroína, e é sobre este segundo perfil que se debruça o ator Caco Ciocler em sua primeira incursão atrás das câmeras. O documentário “Esse viver ninguém me tira” foi exibido na tarde desta quinta-feira no Cinépolis Lagoon, dentro da mostra competitiva da Première Brasil do Festival do Rio.

Os familiares, jornalistas, historiadores, pesquisadores, colegas e professores entrevistados definem Aracy com os adjetivos mais lisonjeiros possíveis, mas o consenso é que, acima de tudo, tratava-se de uma mulher corajosa. Aos 26 anos, com um filho de cinco e “dona da própria vida”, como lembra um dos personagens, ela foi para Alemanha nazista, onde se tornou chefe do setor de passaportes do consulado brasileiro em Hamburgo, e onde se apaixonou pelo autor de “Grande Sertão: Veredas” e então diplomata.

Lá, arriscou a própria vida ao ajudar judeus a obterem o visto necessário para viajarem ao Brasil. Algumas das falas mais emotivas vêm de pessoas desconhecidas que possivelmente existem graças à ousadia de Aracy, única brasileira inscrita na Avenida dos Justos entre as Nações, em Jerusalém, além de ter tido seu nome usado para batizar um parque em Israel. Uma das mulheres entrevistadas calcula que pode haver, hoje, cerca de uma centena de judeus vivos por causa do “anjo de Hamburgo”.

O longa de Ciocler reconstrói a história da perfilada principalmente a partir de depoimentos, mas também de poéticas imagens de apoio e reflexões do próprio diretor, que pesquisou cartas e objetos pessoais de Aracy. Nas poucas vezes em que o cineasta abre o escopo de suas lentes e aborda a relação entre ela e Guimarães Rosa, fica clara a influência da mulher sobre a obra do marido. O neto dela argumenta que sua força, sintetizada na maneira com que enfrentou o regime nazista, serviu de inspiração aos temas de “Grande Sertão”. Já Ciocler fantasia: “Cabe a nós imaginar: juntos, sobre o que falavam? Que tipo de silêncio havia entre os dois?”.

O ator e documentarista não estava presente na sessão, por ter ficado “preso” no Projac, onde aconteceu, nesta quinta, o debate entre os presidenciáveis. Em seu lugar, mandou o diretor de produção, que leu uma carta escrita por Ciocler:

O filme foi exibido em Gramado, mas essa sessão é importante porque a bisneta de Aracy, Sophia Tess, está aqui. O Caco pede mil desculpas por não ter vindo, mas trouxe essas palavras: “Quando era pequeno, ouvi uma história, a de que o Spielberg não conseguia enquadrar o tubarão. Então ele transformou a fragilidade em potência, filmando apenas a barbatana e deixando que os espectadores imaginassem o monstro. Nosso tubarão, a Aracy, ficou conhecida como a segunda mulher de um grande escritor. Não pudemos enquadrar o marido famoso por questões de direitos autorais. Nos restavam as histórias ouvidas e contadas. Esse filme tem mais a ver com barbatana do que com tubarão. Nosso monstro era frágil, mas tiramos a Aracy do status de mulher de escritor famoso. Me curvo diante dos mestres deste festival e peço licença para mostrar meu experimento.
 
 
 
 
 
 
 
Na coletiva do filme, na serra gaúcha, o diretor contou que o filme sobre Aracy Moebius de Carvalho Guimarães Rosa lhe permitiu descobrir parte de sua história, e também da história dos judeus na Alemanha, sob o nazismo, nos anos 1940. Aracy foi casada com o escritor João Guimarães Rosa, autor de Grande Sertão – Veredas e Sagarana, e de certa forma viveu à sombra do marido famoso (e genial). Mas, antes disso, quando morou em Hamburgo, secretariando o consulado do Brasil, Aracy valeu-se do cargo para emitir vistos falsos e passaportes que permitiram a muitos judeus abandonar o país – e escapar do Holocausto. Tornou-se o anjo de Hamburgo, uma espécie de Schindler de saias. Isso lhe valeu uma rara honraria. Embora o chanceler Oswaldo Aranha tenha presidido a Assembleia da ONU que resultou na criação do Estado de Israel, Aracy é a única brasileira cujo nome está escrito no Jardim dos Justos entre as Nações, no Museu do Holocausto (Yad Vashem), em Jerusalém.

Quando Caco chegou ao projeto, ele já estava em andamento, tocado por Alessandra, que conhecera Aracy e sua história por meio de uma nota quando ela morreu, em 2011. Havia muita coisa que levava Alessandra a se interessar pelo assunto. Aracy era mãe solteira – de um filho de cinco anos – quando foi viver no estrangeiro, e na Alemanha nazista. Sua coragem e determinação foram inspiradoras. Mas o filme teria tomado outro rumo sem Caco. “No roteiro inicial, havia a proposta de falar com as filhas de Guimarães Rosa, abordando a personalidade de Aracy em função do escritor. Depois de muito avaliar, chegamos à conclusão de que seria uma questão extremamente particular, e não caberia expor a vida íntima da família. Isso terminou nos forçando a falar da Aracy independente de Guimarães Rosa. A tirá-la da sombra dele”, contou o diretor em Gramado.
O formato é simples e direto – narrado em primeira pessoa pelo diretor, o documentário é conduzido pelos depoimentos. “O caminho que me interessava, como judeu, era entender quem era aquela mulher, por que fez tudo aquilo. E para isso não tínhamos muitos documentos. Para ser sincero, consegui uma carta, em alemão, que traduzimos, mas era muito complicada e preferi deixar de fora, porque não ajudaria a elucidar nada.” Mesmo com crédito de codireção para Alessandra, a mudança de rumo foi tão grande que o documentário sobre Aracy também é sobre Caco Ciocler. Momento muito especial é o diálogo do ator e diretor com seu avô. A questão judaica, a humanidade de Aracy, tudo aflora. Quando Caco vai rezar no Muro das Lamentações, não se trata de excesso nem exibicionismo. É um trabalho sensível, delicado e autoral. 
 
Documentário completo aqui: Este viver Ninguém Me Tira
 
 
 
 
 
 

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